Volver (2006)

Lembre-se, fui eu quem o matou. Você não viu nada porque estava fora.
(Raimunda para filha Paula)

Mais uma vez, o destemido diretor Pedro Almodóvar (Atame, de 1986) nos presenteia com um trabalho extremamente sensível, destacando o amor entre mulheres. Todas elas marcadas pela falta de apoio masculino em suas trajetórias de vida. Ao mesmo tempo, nos relata um crime de morte, a ocultação de um cadáver, um estupro incestuoso e, ainda, uma crueldade inominável – a queima de um casal de amantes. Tudo isto! Que filme sensível é este? É isto mesmo.

Na verdade, é a maneira de Almodóvar contar a história, narrativa que flui de maneira leve com o passar da fita e, de alguma forma, entendemos a razão das personagens assim agirem, ou seja, percebemos seus motivos para praticarem tais atos.  Não as julgamos, mesmo diante de fatos tão assustadores.

Raimunda (Penélope Cruz) é uma mulher atraente e trabalha arduamente para manter sua casa, infelizmente, não tem sorte com o companheiro Paco, um aparente desocupado,  mas  é o homem com quem ela divide um dos prazeres da vida . Paco revela seu caráter vil  ao tentar forçar uma relação sexual com a enteada Paula (Yohana Cobo), filha menor de sua companheira. Ação própria dos canalhas, daqueles desprovidos de sentimento moral. Para se defender da abjeta investida, a garota mata-o num gesto de defesa.

A mãe pactua com a filha e assume a responsabilidade do ato. Juntas arrastam o corpo e escondem dentro de um freezer do restaurante.. Várias pessoas vão comer naquele lugar onde o cadáver permanece bem guardado e conservado. As iguarias são preparadas pelas duas mulheres, além de servirem um saboroso mojito espanhol.

A irmã de Raimunda, Sole (Lola Dueñas – Mar Adentro, de 2004) retorna do enterro de uma velha tia e reencontra a mãe Irene (Carmen Maura) que oficialmente estava morta. Após o susto, elas tentam manter o segredo incólume, mas logo é descoberto pela família.

Durante o drama o espectador percebe todo o afeto que o diretor nutre por suas personagens femininas, protegendo-as do alcance da lei e de qualquer censura, mesmo diante das revelações delituosas que nos são mostradas. Os traumas da violência sexual são temas recorrentes do diretor,  tablado que ele desliza com sutileza.

Irene diz a filha Raimunda que descobriu o coito forçado que esta sofreu do próprio pai, sendo Paula fruto da relação incestuosa. Diante da descoberta perpetrou uma vingança assustadora, quando revela para a filha: Eu o achei dormindo nos braços da mãe de Agustina, ambos exaustos. Eles não me viram. Eu ateei fogo na cabana. Em face deste fato passou a viver como uma alma-perdida, escondida de todos, uma vez que pensavam ser dela o corpo da mulher queimada.

Após tudo ser desnudado, Almodóvar une as mulheres vitimadas pelas tragédias pessoais para um novo recomeço. No trajeto de Madrid para a antiga vila em que elas nasceram, param perto de um rio e Raimunda mostra a Paula o local onde enterrou o desprezível Paco.

Trailer Oficial:

Trailer oficial – Volver – YouTube

 

 

 

 

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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