Rastros de Ódio (1956)

Peque tudo que você ouviu contar em sua vida. Tudo mesmo. Depois multiplique por cem. Nem assim você terá um filme de John Ford.
(James Stewart)

A expressiva maioria dos críticos considera este filme a maior realização do renomado cineasta John Ford – um dos pioneiros do já esquecido gênero Western. Aliás, a consagração deste diretor foi conquistada nas imensidões desérticas do Arizona e estados vizinhos, onde rodou outros clássicos inesquecíveis, dentre os quais: No Tempo das Diligências, de 1939 – primeiro faroeste rodado no cenário natural e suntuoso de Monument Valley.

Esta obra, além de seu belíssimo cenário, retrata a solidão de um homem em sua busca interior; na sua odisseia pelo deserto, onde a aridez da terra parece secar sua alma nômade. É difícil caminhar pelo mundo e não ter um lugar para voltar. Ser condenado a um exílio permanente deixa marcas indeléveis.

Ethan Edwards (John Wayne) – confesso que não aprecio seu estilo matador de índios – é o Ulisses que volta para um lar que não lhe pertence e para perto de uma mulher que o ama, embora esteja casada com o seu irmão Aaron Edwards. Além de tudo, ele é um soldado derrotado pela rendição do General Lee durante a Guerra de Secessão. Aliás, um de seus traumas é não reconhecer a derrota sulista, pois incorpora juramento e dever como valores inegociáveis.

A casa do irmão fica no Texas e lá começa toda a história de uma jornada de vingança, que leva cinco longos anos. A busca tem como motivação a matança de sua família e a captura das sobrinhas Debbie e Lucy pelos índios comanches, liderados pelo chefe Scar (Henry Brandon) – em irretocável desempenho. Ethan sai em uma implacável perseguição e não guarda pudores para praticar qualquer ato tão brutal quanto aquele que vitimou seus entes queridos.

O filme debate a arrogância e a intolerância dos americanos, que não aceitaram a união com índios e negros, uma vez que sempre olharam para os outros povos com desprezo e ar de superioridade. O diretor questiona: o racismo, a ganância de avarentos comerciantes, a hipocrisia do reverendo/ranger, além de misturar loucos, mexicanos e malfeitores, que povoam as pequenas comunidades daquela região inóspita.

A caçada é também uma retaliação que Ethan quer impor aos índios, como uma forma de mostrar que pertence a uma raça superior de homens fortes, imbatíveis e justiceiros. Em sua ensandecida obsessão percorre planícies áridas, campos gelados do norte e todos os territórios ao alcance de sua marcha da vingança.

A cruzada é feita ao lado do jovem mestiço Martin Pawley (Jeffrey Hunter) – um agregado da família, que ele despreza e humilha na frente de todos. Na verdade, o jovem é uma contraposição ao intragável confederado e tem muito mais apreço pelo resgate de Debbie (Natalie Wood) do que o próprio tio. A segunda e última cena em que ele implora para o homem branco não matar a garota, pelo simples fato da mesma ter adquirido os costumes indígenas, é antológica, revestida de um vigor intenso e, ao mesmo tempo, emocionante.

Os índios são sempre os vilões da história, uma faceta mal contada que levou o público a odiá-los e vê-los apenas como meros selvagens. Isto é, entretanto, um plano secundário, pois o tema central do filme é a amargura de Ethan na sua empreitada de rancor. Tristemente, naquele tempo, a tomada do oeste foi marcada por massacres impiedosos.

A longa marcha chega ao fim e Debbie é conduzida ao rancho de amigos. A outra sobrinha ficou enterrada na areia do deserto. Novamente, o Ulisses de Ford retorna a um lar que não é seu e sente que não pode ficar. O homem vingador é derrotado pelo seu vazio interior, seguirá no seu mundo de desterro, cavalgando na vastidão da pradaria.

Veja:

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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