Os Girassóis da Rússia (1970)

A Bíblia ensina a amar nossos inimigos como amamos nossos amigos, talvez porque sejam as mesmas pessoas.
(VITTORIO DE SICA)

Com um estilo próprio, o cineasta Vittorio de Sica, dirige este memorável filme que narra a saga de uma mulher apaixonada em busca do marido desaparecido no front durante a Segunda Guerra Mundial. De Sica (Duas Mulheres, de 1960) gosta de retratar os dramas da vida sem rodeios – não reveste a personagem daquele heroísmo que desperta no público a sensação de aparente imortalidade.

O drama é aberto com imagens de girassóis e ao som da marcante melodia de Henry Mancini, que propiciam um clima de renascimento e esperança, mesmo depois das cinzas da guerra e suas irrecuperáveis perdas. É neste ambiente que Giovanna (Sophia Loren – El Cid, de 1961) deixa a bela Itália e sai em busca de Antonio (Marcello Mastroianni), que, oficialmente, é dado como perdido (morto) nos campos da Rússia. Ela não cansa de repetir: “Ele está vivo.” E está. Na esperança de encontrá-lo, percorre belíssimas plantações de girassóis, que com suas flores amarelas cobrem o outrora campo de batalha, trazendo a superação da morte e unindo seres humanos que no passado se digladiaram.

Antonio foi salvo – estava ferido e congelando – por uma camponesa russa; justo ele, que era italiano e inimigo dos russos. A tragédia da guerra os une e passam a viver como marido e mulher em uma vila. O casal tem uma filha chamada Katya, que, em sua inocência, desmorona o castelo de Giovanna, quando esta, enfim, chega ao lar onde vive o tão buscado marido e escuta a pequena dizer: Buongiorno! Não precisava ouvir mais nada – o pai, sem dúvida, a ensinara a saudação em língua italiana.

Uma mulher sente quando tudo está perdido. O reencontro com Antonio é constrangedor, pois sua atual mulher Masha (Ludmila Savelyeva) o espera e, ao descer do trem, tenta beijá-la, mas é rejeitado; logo adiante está aquela que atravessou fronteiras em nome de um amor que acreditava perdurar no tempo. Os olhares se cruzam e aí já é tarde demais para um recomeço. Havia outra entre eles.

O amor de Giovanna foi posto à prova e ela não nos decepcionou. Aqui está a diferença de sentimentos – a maioria das mulheres busca um amor único e verdadeiro e os homens – grande parte – gostam de aventuras. É minha opinião e o filme me faz refletir sobre este ponto, sobretudo, quando Antonio não volta para sua mulher, mesmo tendo o caminho livre. Por que não voltou? O que falou mais alto? Talvez não a amasse ou se acomodou diante das circunstâncias. Os homens sempre encontram justificativas para suas fraquezas diante de situações amorosas – na hora de decidir, procrastinam o quanto o tempo permitir.

Decepcionada, Giovanna retorna para seu país e encontra um companheiro para tentar preencher o vazio deixado pela perda do amado que ficou em terras estranhas. Sabemos e sentimos que ela jamais irá esquecê-lo, viverá para sempre das lembranças de um sentimento no qual acreditou, a que se entregou sem limites.

A razão a impede de sair em uma nova cruzada, pois, ao receber em sua casa a visita de seu ex-marido, recusa um convite para acompanhá-lo, quando diz: “… Tenho um filho ali dentro. E sua filhinha?… Não podemos esquecê-los..” A despedida na estação é marcada mais uma vez por um olhar distante; distância que o homem desejado não foi capaz de superar.

Girassóis… é uma elegia ao amor; um tributo aos amantes da sétima arte e um filme para jamais ser esquecido. Uma reflexão sobre os verdadeiros valores da vida a dois, dentre eles um dos mais sublimes: o juramento perante o altar; promessa esta quebrada por Antonio. O que restou do nosso amor ficou… No tempo esquecido por você… (Música A Distância, de Roberto e Erasmo Carlos). Muitos amores ficam perdidos no tempo…

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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