O Piano (1993)

À noite, eu penso em meu piano, em sua sepultura no oceano. E, às vezes, em mim mesma, flutuando sobre ele. Lá embaixo, tudo é tão quieto e silencioso, que me faz dormir.
( Ada – sobre o piano que ficou para trás)

Pode não ser o filme que você elegeu como o melhor de todos que já assistiu, mas, certamente, deixou-lhe alguma lição de vida. O Piano é um filme marcante, narrado pela personagem principal Ada McGrath (Holly Hunter), que tem uma atuação extraordinária vivendo uma mulher muda durante o século XIX, nas selvas da exótica Nova Zelândia. Por este trabalho Holly ganhou o Oscar de melhor atriz.

O drama conta a história de uma mulher que é obrigada a ir para terras estranhas, já que seu pai a casou com um homem que ela sequer conhecia. Logo na chegada, o marido Stewart (Sam Neill) a recebe de forma irônica quando diz: “Não pensei que fosse tão pequena” e, ainda, pede a opinião do amigo George Baines (Harvey Keitel – Taxi Driver, de 1976) sobre a mulher com quem casara.

Na cena seguinte ela está subindo a montanha e olha para a praia onde deixou uma de suas paixões, um piano, que ficara por ser pesado demais para ser carregado. Neste momento, sentimos o vazio que emana do olhar da protagonista, como se o piano fosse parte de seu corpo que acabara de ser suprimido. A outra razão de sua vida é a filha Flora (Anna Paquin), que rouba a cena, numa atuação perfeita –  Oscar de melhor atriz coadjuvante – que surpreendeu pela sua pouca idade à época, inclusive, não pôde assistir ao lançamento do filme, porque a censura não permitiu, já que tinha apenas onze anos.

O adorado piano Broadbent é trocado por terras com o vizinho Baines. Para estar perto de seu instrumento musical, ela passa a dar aulas ao rude vizinho, que, na verdade, guarda outras intenções. Até onde somos capazes de aceitar caprichos que ferem nossos princípios para não ficarmos distante daquilo que amamos? Sem seu piano, ela não suportaria viver naquele mundo hostil.

No início das aulas, Baines faz uma proposta indecente e começa um jogo de sedução ao seu estilo, trocando teclas por pequenas e forçadas carícias na “professora”. O jogo é perigoso, pois Ada é casada e seu marido é um irracional que não consegue conquistá-la. Ele descobre o caso amoroso e, como punição, proíbe as lições trancando-a em casa.

A prisão domiciliar desperta mais ainda a paixão da infiel mulher, que por meio de sua filha, tenta comunicação com o amante. A pequena Flora delata a mãe. Por quê? É a pergunta que fica. São trágicas as consequências da revelação e levam o marido traído a amputar um dos dedos da mão de sua mulher a golpe de machado. A cena é de um vigor intenso e perturbador. Após a brutalidade ele diz: “Cortei sua asa, só isso”. O gesto animalesco termina a difícil relação com Stewart, levando-a aos braços do amado e, ao lado do “ex-aluno”, conquista a felicidade que não encontrou no arranjado casamento.

Na travessia para a nova vida, o estimado piano é “sacrificado”, sendo jogado nas profundezas do oceano. Ao final, Ada é uma mulher realizada e aos poucos vai reencontrando a voz perdida na infância.

A direção é da neozelandesa Jane Campion (Fogo Sagrado, de 1999) que com este trabalho ganhou notoriedade, principalmente, pelas premiações que o filme recebeu, tanto da Academia como dos circuitos independentes. Filme com bela fotografia e figurino impecável. Vale conferir esta obra e sentir que quando nossos desejos não podem ser externados pelo grito, serão pela firmeza de um olhar.

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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