O Pecado da Fé (2004)

O cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus.
(Federico Fellini)

Por não saber ler, o que naquela época era plenamente aceitável, a jovem e bela mulher Marie-Loup Carignan (Noémie Godin-Vigneau) é vítima da paixão de um padre – aquele a quem muitas vezes revelamos nossos “pecados”. Infelizmente, fomos moldados para acreditar em um Deus que a tudo vê e tudo determina e, o pior, nos ensinaram que ele tem seus legítimos representantes na terra. Será? Sinceramente, não acredito.

O filme narra o sofrimento de Marie-Loup, uma linda viúva mãe de uma filha pequena chamada France Carignan (Juliette Gosselin) que vivem nos arredores de Quebec no século XVIII, na época da disputa entre França e Inglaterra pela conquista da colônia canadense. Durante os conflitos, o povo busca conforto nos ensinamentos do padre Thomas Blondeau (Gérard Depardieu – Jean de Florette, de 1986). Em meio a tudo, o coração de Marie-Loup suplica pelo amor do aristocrata François Le Gardeur (David La Haye), que ela conhece quando está na feira livre vendendo seus produtos. O desejo é correspondido pelo cavalheiro e os dois externam a paixão em ardentes beijos.

Os interesses políticos forçam François a fugir da cidade. Ele envia um bilhete para a amada, marcando um encontro, e lhe pede segredo. Confiando no pároco Blondeau, ela entrega o escrito para que  leia e aí o padre mente ao dizer que François teve que partir e pede na carta que o esqueça. A sordidez do religioso é repugnante, pois além de mentir, vai ao encontro assinalado e lá inventa outra história e, assim, sela a dolorosa trajetória dos amantes.

A justificativa do reverendo para seu vil ato está no amor que ele diz sentir pela estonteante mulher, aliás, é comum ver alguns homens desejarem belas mulheres, e quando são desprezados, eles não aceitam que elas busquem saciar seus prazeres em outros braços.
O egoísmo fala mais alto e, in casu, um presbítero, que jura perante Deus ser fiel aos sagrados princípios cristãos, jamais poderia ter tal atitude – aqui caberia o uso da afamada fogueira da Inquisição, o instrumento crudelíssimo da Igreja Católica undado para matar aqueles que duvidavam da fé imposta.

Marie-Loup é forçada pelas circunstâncias a casar-se com um ex-amigo de François, mesmo que a contragosto da filha. Não sabe ela que foi ele quem traiu seu amado. Na noite de núpcias, ela rejeita o asqueroso marido Xavier Maillard – interpretado por Sébastien Huberdeau. A relação fica tensa e insuportável. É neste clima que François retorna da França e reencontra seu amor nas deslumbrantes paisagens do Canadá e, mais uma vez, mergulham numa profunda troca de carícias. Tudo é revelado e ela diz ao padre: “Mentiu para mim. Mentiu descaradamente! Aqui, na frente do altar! Ante Deus”. Um gesto imperdoável!

O marido descobre o plano da mulher para fugir com o amante e tenta matá-lo em uma emboscada. Daí para frente, o diretor Jean Beaudin cria um ambiente de suspense e nos esconde temporariamente a verdade dos fatos. Maillard é encontrado morto e, no decorrer das investigações, a justiça acusa Marie – que confessa o crime – sendo condenada à forca.

Ela leva para o túmulo um segredo que só sua filha conhece.

Ao final, o moribundo padre Thomas é surpreendido pela revelação que a filha France, já adulta, faz em seu leito e, é neste momento, que descobrimos a verdadeira assassina.
Assista a este filme maravilhoso, composto de um grande elenco – Irène Jacob (A Dupla Vida de Veronique, de 1991), Vincent Perez, entre outros – e que, infelizmente, foi lançado diretamente em vídeo no Brasil, para sentir o quanto o manto dito “sagrado” esconde faces por baixo de batinas que muitos não ousam revelar.

Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no print
Imprimir
Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

Deixe um comentário