O Franco Atirador (1978)

John Cazale (Stan) teve suas cenas antecipadas, pois estava muito doente – era portador de um câncer terminal. Morreu antes do fim das filmagens.

A história gira em torno de alguns amigos que trabalham numa fabrica de fundição no estado da Pensilvânia. Quando saem do trabalho insalubre vão se divertir num pequeno bar, onde bebem, ouvem música e jogam bilhar – é a majestade de suas  juventudes gritando pela vida que anda rápida demais. A simples passagem do tempo nos castra e perdemos a vontade de coisas que entorpecia nossas mentes facilmente – não bebemos mais o gosto de tudo.

A paisagem da cidade é feia, com as chaminés da fábrica expelindo fumaça e cenas escuras. Mas isso é rebatido com a imagem das montanhas, quando eles vão caçar um servo e apostam na derrubada do animal com um só tiro. O ambiente nos penhascos é silencioso.

Um corte nas brincadeiras e os amigos se encontram na realidade da guerra. As imagens são chocantes. Homens enjaulados dentro de “gaiolas” nas águas barrentas do rio. Soldados disputando roleta russa e rindo de cada tiro que explode os miolos dos aprisionados. É neste inferno que Michael (Robert De Niro) se supera e consegue ajudar os amigos Nick (Christopher Walken) e Steven (John Savage) a sobreviverem naquele hostil mundo.

O filme é dirigido por Michael Cimino – Horas de Desespero, de 1990, e tem um ritmo lento na primeira (onde amigos parecem viver uma despedida) e última parte. Uma melancolia o permeia durante todo o tempo, mas é um trabalho primoroso.  As atuações memoráveis de Robert De Niro e Christopher Walken nos fazem sempre lembrar esta visão crítica da guerra do Vietnã, na qual o diretor vai muito além das assombrações de um conflito. Projeta com maestria os grandes traumas deixados pelo conflito – o depois da batalha.

Os amigos já não são mais os mesmos, não conseguem se soltar das amarras dos combates, a guerra destruiu parte de seus corpos e aprisionou suas almas – o suicídio atormenta qualquer um que viver esse pesadelo. A loucura da guerra é um mundo real que alimenta a sandice dos insensíveis.

O lado bom está mesmo no que ficou nas lembranças do grupo, sendo Linda (Meryl Streep) a mulher desejada pelos amigos Nick e Michael. John Gazale – O Poderoso Chefão, de 1972, que só fez cinco filmes na vida, vive Stan e não vai para o front.

Não é uma produção para o chamado grande público, mas um trabalho que denuncia os traumas do conflito olhando para o dia a dia dos combatentes e ex-combatentes, sem a intenção de impactar o espectador. Fica no plano profundo de nossos interiores que muitas vezes são vazios e maçantes. A obra não é emocionante e sim realista. A realidade é mesmo sem graça na maioria das vezes.

Veja:

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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