O Evangelho Segundo São Mateus (1964)

Ao contrário de um tom grave e épico, tão aguardado em filmes de gênero, Pasolini buscou a leveza.
(Luis Carlos O. Junior – crítico de cinema)

Discordo de alguns críticos que dão ênfase ao fato de esta  película estar incluída na lista do Vaticano – filmes com temas religiosos aprovados pela Igreja Católica – a Inquisição e a Censura são coisas do passado. Isto não muda nada.

O filme de Pier Paolo Pasolini é uma obra-prima. Um filme obrigatório para cristãos e não cristãos. Se a passagem de Cristo foi verdadeira do ponto de vista dos religiosos, esta versão pasoliniana é a mais plausível que já vi; retrata tudo de maneira simples e nos mostra um salvador preocupado em fazer valer seus argumentos. Por vezes ele é inflamável, intolerante e até certo ponto revestido de infantilidade. A construção de um mito é feita por meio de citações do próprio Cristo (Enrique Irazoqui) em pregações a um número sempre reduzido de ouvintes – exceção a um momento dentro da cidade de Jerusalém. Não existe a ideia da glorificação. O que temos é um registro eminentemente evangélico e sem alardes.

Comparado com o brutal A Paixão de Cristo, de 2004, dirigido por Mel Gibson, o trabalho de Pasolini é focado no simbólico – reside aí a razão da aprovação pela Cúria Romana – mas, entenda, este simbólico é fruto da narrativa de uma terceira pessoa: in casu, o evangelista Mateus. A palavra é o tema central – a vida e o calvário de Cristo ficam em segundo plano. As locações do filme de Gibson foram realizadas no mesmo lugar – distrito italiano de Basilicata e na cidade de Matera – quarenta anos depois.

Este perseguido diretor italiano também viveu sua via crucis (perversamente caçado pelas dezenas de processos judiciais – a  maioria em face de suas críticas literárias, que vão do profano ao divino) para, enfim, chegar ao seu “Gólgota” e partir de forma tão trágica. O assassinato de Pasolini nunca foi esclarecido.

A famosa história de Cristo tem recebido as mais diversas versões – oficiais e apócrifas – e, dificilmente, chegará a um consenso entre os pesquisadores. Haverá sempre alguém moldando os ensinamentos bíblicos de acordo com sua fé, o que estraga o resultado de muitas obras. O diferencial da película de Pasolini está, sobremaneira, na sua condição de não-fiel, pois conduziu o filme com singeleza. Até os curtos cabelos de Jesus mostra seu compromisso com os fatos  – a grande parte dos judeus que viviam naquela época não usava cabelos longos.

Um registro é importante. O massacre das crianças não é mostrado em close-ups como em quase todo o filme, onde os planos fechados nos rostos das personagens predominam; talvez porque Pasolini não desejasse detalhar uma violência tão cruel. No ensejo, faço referência a uma obra literária: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de autoria de José Saramago, em que uma das passagens faz referência a este massacre. Este triste episódio seria a grande agonia de Jesus, pois ele não conseguia perdoar seu “pai celestial” por poupá-lo e, ao mesmo tempo, permitir uma matança de indefesos infantes; como bem disse o cineasta José Araújo em seu premiado filme O Sertão das Memórias, de 1997, quando Antero (Antero Marques) professa: “a noite dos inocentes”.

Realmente, como entender um Deus que salva seu filho amado – Levanta-te, e com o menino e sua mãe, foge para o Egito – e permite os golpes impiedosos de lâminas romanas contra as demais crianças. Imaginem os gritos de horrores das mães que suplicaram aos céus a salvação de seus filhos; gritos que se perderam no tempo e, se foi verdade este morticínio, pergunto: Por que o anjo não alertou os outros pais? Que Deus é este?

O Evangelho Segundo São Mateus é o retrato mais aproximado de uma história milenarmente conhecida, mas, infelizmente, muito mal contada. Como disse José Saramago, em seu Evangelho… Perdoem! Ele (o Pai) não sabe o que faz.

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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