Infidelidade (2002)

Um dos filmes que revi várias vezes, só no cinema foram quatro sessões. Não consigo identificar a razão maior de tantas idas à sala escura, talvez tenha sido o fato de alguns amigos cinéfilos discordarem da minha opinião sobre o final.

A história – na verdade um remake da produção francesa La Femme Infidèle, de 1969 – mostra um triângulo amoroso e retrata a angústia de um homem ao descobrir a infidelidade de sua mulher.
Edward Sumner (Richard Gere – Cinzas no Paraíso, de 1978) – em excelente atuação – é um bem sucedido empresário, vivendo em uma bela casa com a mulher Connie Sumner (Diane Lane) e o filho pequeno chamado Charlie. O casal vive bem, embora sinta-se dose de frieza na relação mais íntima. É comum em alguns relacionamentos isto ocorrer. Sabemos que a rotina e a mesmice terminam muitas vezes por sepultar momentos outrora marcados pelos desejos ardentes e juras de amor eterno.

Em uma situação ocasional, a atraente Connie choca-se no meio de um vendaval com Paul Martel (Olivier Martinez – Antes do Anoitecer, de 2000) e, a partir daí, inicia-se um romance entre eles. Os primeiros momentos revelam que a relação é espontânea e que ela, mesmo um pouco relutante, cruza caminhos para entregar-se nos braços do jovem sedutor. Os encontros acontecem quase sempre no apartamento dele e as cenas sexuais – com um fundo musical encorajador – são bem dirigidas por Adrian Lyne, sobretudo, a que ocorre no corredor do prédio.

O drama cresce muito a partir do momento em que Edward desnuda o affair de sua mulher. A descoberta abala o dedicado marido, que diante da incontestável prova vai até o local onde vive o amante e mata-o em circunstância excepcional. É aquele crime praticado sob domínio de forte emoção – o chamado homicídio privilegiado. Ele não tinha a intenção dolosa, ou seja, o animus necandi de querer o resultado morte, infelizmente, aconteceu.

Depois do crime, o marido enganado não consegue disfarçar a tensão diante dos acontecimentos. As autoridades investigam o desaparecimento de Paul e não conseguem elucidar o caso. Quem não tem vocação para o mal, dificilmente sustenta em silêncio uma infração gravíssima ao sistema legal. A tortura interior vai aos poucos consumindo você, minando suas resistências e o grito brota do seu mais profundo eu.

Tudo é revelado entre o casal – traição e assassinato. A mulher tenta de todas as formas induzir o marido a conceder-lhe o perdão, além de sugerir uma nova vida em outro lugar. Esqueceriam os fatos e seriam felizes. A vida marcada pela tragédia não é tão simples assim.
“O sinal está aberto para nós” e o carro não sai do lugar. Pai, mãe e filho estão dentro. Por que não acelera? É a pergunta chave. Há algo que freia a ação. Ouso dizer: são os alaridos de sua consciência que não permitem a partida tão suplicada pela infiel mulher, pois sentimos no transcorrer do filme que Edward não suportaria carregar o peso dos delitos praticados: a morte e a ocultação do cadáver.

Lembrem-se! O veículo está em frente ao distrito policial e não segue, mesmo o semáforo acusando luz verde, portanto, ele vai se entregar.

Traições amorosas deixam rastros que nem mesmo o tempo apaga. Para quem vive o perigoso jogo da sedução é importante saber: a qualquer instante você pode ficar eternamente preso no “sepulcro dos esquecidos”. Entretanto, devo confessar: é difícil resistir…

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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