Hotel Ruanda (2004)

Vocês são um lixo…O ocidente, as superpotências…Tudo aquilo em que você acredita mesmo. Acham que vocês são um lixo, que não valem nada.
(Cel. Oliver – para Paul)

Mortes de inocentes podem ocorrer! Os países ricos não podem virar as costas! Vozes ecoaram mundo afora e nada, absolutamente nada foi ouvido. Sim, a matança aconteceu. Os poderosos ignoraram. Sabem por quê? Simples: eles eram negros e pobres. O ano do horror foi 1994.

O filme é baseado em fatos reais e narra a barbárie travada pelos habitantes de Ruanda na África, entre as facções tutsis e hutus que disputavam o poder local.O genocídio ocorreu e as argumentações dos grandes líderes – Clinton, François Mitterrand e Boutros Boutros-Ghalin, então Secretário Geral da ONU – na época foram absurdas: disseram que não tinham informações precisas sobre o que estava acontecendo e não poderiam intervir. Mentiras deslavadas. Sabiam sim, tanto que retiraram seus diplomatas e ricos colaboradores que lá estavam. O mundo desprezou um conflito que matou algo em torno de um milhão de pessoas, isto em apenas três meses de guerra.

O excelente trabalho do diretor Terry George não apela para cenas de violência e tampouco para o jorrar de sangue na grande tela, como muitos gostam. Retrata os fatos sob o olhar de Paul Rusesabagina, interpretado maravilhosamente pelo ator Don Cheadle (Crash – No Limite, de 2004). Ele é o gerente de um hotel luxuoso que abriga a elite e visitantes que vão a capital, Kigali.

Quando eclode o embate entre as etnias, muitos buscam refúgio no hotel Milles Collines e, neste momento, Paul revela seu lado humanitário ao abrigar os indefesos, mesmo diante das ameaças que constantemente rodeiam o ambiente. A sua atitude – apesar do medo – salva pessoas e nos mostra um homem digno e verdadeiro, que em uma atmosfera apocalíptica foi capaz de enfrentar todas as hostilidades e sobreviver a tudo que viu e viveu.

Há uma cena que revela o quão estamos distantes da realidade do mundo dos explorados. Ocorre justamente quando o jornalista Jack Daglish (Joaquim Fênix) mostra imagens do massacre e fala que os telespectadores talvez iriam ver a matéria durante um jantar; alguns se sensibilizariam e depois de um breve comentário voltariam a comer tranqüilamente. É verdade. Não sendo na nossa pele tudo pode acontecer. Cuidado! A violência pode estar bem mais perto do que você imagina. É preciso vender armas, munições, tanques etc. É o pacto dos imperialistas e o morticínio dos miseráveis.

Imaginem: corpos aos montes; corpos roxos com a morte costurada em suas entranhas. Nauseante? Sim. Entretanto, é um fato, é real. Não se enganem, a guerra civil em Ruanda manchou a paisagem do continente africano. O drama mistura-se ao terror cotidiano vivido pelas duas tribos. Este sentimento foi fomentado pelos “donos do poder” há pouco nominados, que irresponsavelmente colocaram armas nas mãos de milícias tribais e que não tinham qualquer formação militar e humana.

As atrocidades nazistas foram denunciadas de forma contundente pela mídia mundial e não deveria ser diferente. O poder econômico da comunidade judaica é fortíssimo e seus gritos foram ouvidos, embora um pouco tarde. Já os ruandeses não tiveram o mesmo tratamento, foram esquecidos e seus lamentos de horrores se perderam nas savanas da África. Muitos habitantes foram forçados ao exílio e, ainda hoje, vivem refugiados em outras paragens. A ex-colônia belga foi palco de uma carnificina que ficará para sempre em nossas memórias e, tenho certeza, nas lembranças daqueles que assistirem a este filme, que é imperdível.

 

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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