Fale com Ela (2002)

Um dos últimos trabalhos de Pedro Almodóvar que recebeu carregados elogios da crítica mundial. Desta feita, o inovador diretor conseguiu reunir personagens em situações adversas e uni-los pela força do desejo. Aliás, o desejo é manifestação maior de seus personagens – o desejo é vivido em toda sua plenitude, mesmo que as consequências sejam trágicas.

Quando amamos não conseguimos o raciocínio lógico para segurar o impulso interior, que muitas vezes, nos leva a caminhos que deixam seqüelas irreparáveis. É neste contexto que o filme é ambientado. Uma paixão sem limites e o pior, quem nutre o sentimento sabe que jamais será correspondido – a mulher desejada está distante demais para ser alcançada.

Os personagens de Almodóvar (A Flor do Meu Segredo, de 1995) vivem situações inusitadas: há um homem que parece gay, que é o enfermeiro Benigno (Javier Cámara) – no íntimo é heterossexual e estupra a amada que está em coma; tem a jovem Lydia (Rosario Flores) que mostra valentia ao enfrentar touros na arena banhada pelo sangue de homens e animais. Mostra, ainda, a trajetória da bela bailarina Alicia (Leonor Watling) que é a vítima do enfermeiro e, assim, a trama desenrola-se e termina por interligar de alguma forma os envolvidos.

Rompimentos amorosos insuflam e amolecem almas femininas e masculinas – as cicatrizes do passado movem os protagonistas em novas e silenciosas relações. Ao ver sua namorada Lydia ser atacada ferozmente por um touro – que não tem compaixão da angústia da matadora – o chorão Marco (Darío Grandinetti) não imagina o que vai encontrar no hospital para onde a companheira é levada e, tampouco, suspeita do que ela tenta contá-lo. Mais uma vez, destinos irão cruzar-se.

O filme é marcado pela a exploração da simbologia, da reflexão, da força do silêncio, tão bem usadas para retratarem as desgraças e decepções vividas. O estupro perpetrado no escultural corpo da dançarina não ocorre pelo meio convencional; há toda uma preparação arquitetada pelo algoz que acredita amá-la e viver uma relação muito mais intensa do que as vividas pelos casais “normais”.

Há uma pequena participação de Caetano Veloso cantando em uma roda de amigos. A trilha sonora é de Alberto Iglesias e a produção de Augustín Almodóvar.

Na verdade, o coma é uma metáfora usada pelo diretor para estocar nossa consciência e fazer com que mergulhemos em nosso interior, pois vivemos em um mundo de seres trancados em suas prisões, isolados do ambiente que os cerca. Nossos gritos não são ouvidos nem pelos mais próximos, principalmente, porque os tímpanos de nossos semelhantes já estão deveras entupidos pelo alarido e gargalhar dos mensageiros do diabo, que todos os dias impõem regras de conduta e castram nossa liberdade.

Não duvide! O sexo é nosso escape, sobretudo, por nos fazer sentir um pouco da plenitude humana e, ao mesmo tempo, divina. Um dos grandes males impostos pelas religiões foi a idéia do pecado original, o que nos levou a carregar um sentimento de culpa pesado demais; romper estas barreiras não tem sido tarefa fácil para muitos.

Fale com Ela é um grito do universo masculino diante das tragédias magistralmente contadas. É, também, uma reflexão sobre um dos nossos grandes medos: a solidão – que atormenta e aprisiona a alma e o corpo.

Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no print
Imprimir
Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

Deixe um comentário