Era Uma Vez no Oeste (1968)

Eu mato qualquer um, mas não mato uma criança.
(Cheyenne para Jill)

Nos tempos finais do faroeste ianque, ainda marcado pelo domínio absoluto dos homens, o diretor Sérgio Leone ofereceu ao mundo do cinema uma das mais comoventes sagas de uma mulher a caminho de um lar; entrelaçada numa história paralela de vingança entre homens feios, sujos e malvados.

O filme é um réquiem na estrada da selvageria, tendo como destaques na trama: o misterioso pistoleiro Harmonica (Charles Bronson), o assassino de aluguel Frank (Henry Fonda), a ex-prostituta Jill (Claudia Cardinale) e o perseguido quadrilheiro Cheyenne (Jason Robards). Completa o enredo o aleijado Morton (Gabriele Ferzetti), representando os negócios da implantação da ferrovia.

Revê-lo é revisitar um lugar escondido na memória, onde adormecem as imagens inesquecíveis da minha vida de cinéfilo. A cena em que Frank atira no garoto Timmy – não permitida na TV aberta – é um disparo na consciência, como se uma paralisia tomasse conta do meu corpo, diante de tamanha covardia. Confesso: as lágrimas são inevitáveis. Vou chorar sempre!

Para não nos deixar sofrer mais ainda, após o massacre da família McBain, Leone nos leva ao instante de Jill descendo do trem na estação de Flagstone. Um dos momentos de maestria do diretor italiano, ambientando uma época com riqueza de detalhes, não esquecendo o lado social – os carregadores de malas são índios e negros, relegados ao andar de baixo. Nessa tomada, assistimos a trajetória inicial de seu contato com a vida no Oeste, ao som da magnífica trilha sonora de Ennio Morricone, que dá ao filme a magia que só o cinema é capaz – uma canção que mergulha nos covis da alma.

Nas cenas seguintes, o western é retratado com nostalgia, nos é mostrado que uma Época; enfim, começa a desaparecer. A narrativa lenta anuncia uma despedida dos velhos bandoleiros e, claro, o diretor faz uma homenagem a John Ford quando filma os monumentais paredões rochosos de Monument Valley. O período dos duelos inicia seu canto de morte; os trilhos revelam a chegada de novos tempos.

Antes do advento da civilização, o Harmonica precisa perpetrar sua desforra, afinal, no Velho Oeste a lei era o revólver e os fracos não tinham vez. Aqui, mais uma ousadia de Sérgio Leone, ao usar o rosto mestiço de Charles Bronson (Fugindo do Inferno, de 1963) contra os olhos azuis do homem branco representado por Henry Fonda (Vinhas da Ira, de 1940)

Era Uma Vez no Oeste é uma balada antológica de assassinatos e disputas sangrentas na terra empoeirada. É também a beleza da mulher que renasce na terra dos homens maus nos  seus derradeiros suspiros, superando a dor e estendendo as mãos para um recomeço.

Veja:

 

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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