Em Nome do Pai (1993)

Passei quinze anos na prisão por algo que não fiz. Vi meu pai morrer na prisão por algo que não fez! Continuarei lutando! Em nome do meu pai e da verdade.
(Gerry – na saída da Corte)

O mundo não viverá sem disputas violentas. Em nome dos mais diversos ideais, o sangue e a liberdade de muitos inocentes serão objetos de deleite daqueles que se intitulam senhores das “verdades absolutas”. Em 1974, uma explosão produzida pelo IRA – Irish Republican Army – o conhecido e temido Exército Republicano Irlandês, mata alguns jovens em um pub na Inglaterra, além de produzir ferimentos graves em um grande número de pessoas.

Gerry Conlon (Daniel Day-Lewis – A Insustentável Leveza do Ser, de 1988 ) vive na Irlanda do Norte – “Ulster” – e só quer saber de: amor livre e maconha. Pratica alguns furtos e insulta os militares ingleses que patrulham as ruas de Belfast, habitada por maioria de protestantes, já que os católicos estão mais concentrados no sul.

Quando acontece o atentado, o jovem Gerry está passeando em Londres com o amigo Paul Hill e como polícia ruim tem em todo lugar, são injustamente acusados do crime, além de sofrerem um doloroso processo de tortura e intimidação. A violência maior, entretanto, é contra  os familiares que são presos, eles nada tinham a ver com o ato terrorista, inclusive, de seu pai Giuseppe Conlon (Pete Postlethwait).

O martírio imposto pela falsa acusação destroça a vida da família irlandesa e revela o lado desumano e impiedoso das autoridades inglesas, que, ante o brutal atentado, querem dar uma rápida resposta aos súditos e mostrar serviço, mesmo que isto custe a vida de inocentes, ou seja, sob o pretexto da legalidade, exibem-se tão ou mais cruéis do que os integrantes do famigerado IRA. No tribunal, os policiais e acusadores sustentam as provas arranjadas e os réus são condenados pelo júri. O momento era propício e a “exemplar e conservadora” sociedade inglesa estava sedenta de sangue. O sarcasmo dos interessados no resultado é revoltante e o grito dos inocentes ecoa em nossas consciências. Nunca faça uma acusação forjada, mesmo contra o pior dos bandidos.

A condenação  não intimida os irlandeses, que, diante de tudo, recebem ajuda da advogada inglesa Gareth Peirce, que é interpretada por Emma Thompson – Vestígios do Dia, de 1993. Acreditando na versão dos apenados, ela inicia uma busca pela verdade real dos fatos e termina por provar, em um novo julgamento, que o processo estava viciado em relação a todos os acusados, mas já é tarde, os traumas sofridos são irreversíveis.

O pai de Gerry morre na prisão. Ele dividia a cela com o filho e não foi possível resistir tanto sofrimento e injustiça – tudo culpa da irresponsabilidade da justiça britânica. Quantos inocentes não gritam nas masmorras dos presídios, sobretudo, os mais desafortunados? Só Deus sabe.

Integrantes do braço político do IRA (o Sinn Fein) sabiam da inocência dos acusados, embora à época tenham surgido comentários de que o Gerry da vida real era membro da organização terrorista.  O filme do diretor Jim Sheridan  é baseado na história verdadeira que ocorreu naquele ano.

Há uma cena forte e ao mesmo tempo saudosa para este cinéfilo: é quando os presos estão em uma sessão de cinema – acredite – dentro do ergástulo e o tema do filme O Poderoso Chefão toca, bem como as imagens são mostradas – de que se aproveita um verdadeiro integrante do grupo terrorista e ateia fogo no guarda-diretor. Esta passagem é antes da morte de Giuseppe e ele pensa no filho quando escuta lá de sua cela a voz rouca de Vito Corleone dizer para Michael: “mas não queria essa vida para você”. Ele também não queria este sofrimento para o filho amado.

Em Nome do Pai é um resgate de honras ultrajadas e uma demonstração do quão é perigoso o poder ilimitado no campo da investigação. Só quinze anos depois de ficar injustamente preso, Gerry pode gritar: Sou livre! – outros inocentes nunca soltaram suas vozes, apodreceram nos cárceres fétidos para alguém dizer: Estamos fazendo justiça.

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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