Disque M para Matar (1954)

“Toda ação de Disque M Para Matar se passa numa sala, mas isso não tem a menor importância. Eu também filmaria de bom grado um filme inteiro dentro de uma cabine telefônica.”
(Alfred Hitchcock)

Este é um dos filmes de Hitchcock não muito divulgado pela grande mídia e que tem um dos enredos mais surpreendentes entre tantos outros clássicos do Mestre do suspense. Um Corpo que Cai de 1958 –  falo dele mais a frente –  é mais debatido pela crítica, além de ser um fiel retrato de suas obsessões. Já Interlúdio de 1946, considerado o seu mais bem acabado filme.

Um dos eleitos foi este, por uma razão simples: é o que mais me impressionou, mesmo não havendo um prolongamento maior do suspense, que é a marca das obras de Hitchcock. Observemos que, às vezes, a personagem anda mais do que deve ou as escadas têm mais degraus do que na cena anterior e, assim, são os efeitos visuais de suas películas, que, juntamente com o todo da filmagem, leva o espectador a não desgrudar o olho da tela.

Na trama, temos  Ray Milland para representar o marido que deseja matar a mulher – vivida pela bela Grace Kelly, e, juntos formam o casal Wendice, que frequenta o clube London`s Charrington Gardens. O casal Wendice tem um amigo chamado Mark Halliday (Robert Cummings), que deseja o amor de Margot (Kelly) e é correspondido. O marido Tom (Milland) elabora um excepcional plano para matar sua mulher e, conseqüentemente, herdar seu dinheiro.

Alguns críticos tentam encontrar defeitos neste filme para desmerecer o trabalho de Hitchcock, quando chegam a questionar que os motivos do crime não eram relevantes. Quanta ingenuidade! Neste mundo se mata, principalmente, por dinheiro e esta era a razão maior do arquiteto do crime; porém, havia um agravante:  o desejo de vingança em relação ao entrelace que a mulher tivera no passado com Mark.

É fácil falar de um filme acabado – devia ser assim; eu faria diferente etc. Difícil é construí-lo, idealizá-lo e torná-lo vivo nas telas. Neste trabalho, o mandante do crime é logo revelado, mas o diretor não deixa o cinéfilo perder o interesse, pelo contrário, mantém atraente a trama até seu desenlace. O Genial mestre sabia fazer isso como ninguém.

Este suspense eternizou Grace Kelly (Amar é Sofrer, de 1954). Na cena do ataque cometido pelo bandido contratado para a execução do sórdido plano, está magnífica e, mesmo diante da angústia e do desespero, não perde seu charme. Seu fascínio é sinônimo de sucesso. Em toda sua carreira, Alfred Hitchcock sempre fez filmes marcados pela presença de elegantes mulheres, com predomínio das loiras. Ele também as submetia em constante perigo.

Outro dado merecedor de destaque é o desempenho do inspetor de polícia Hubbard (John Williams), que nos deixa meio impaciente, sobretudo por seu exagerado orgulho quando descobre o crime e os desígnios ocultos por Tom em seu plano quase perfeito. Ele não tem o estereótipo do investigador durão e se revela um assexuado.

Disque M… é um ensinamento sobre as encrencas que podemos ter com a lei e que nos leva a refletir sobre um aspecto: o crime compensa? Entendo que não, pois nossa imaginação não é infalível e o peso da culpa é um monstro interior que a pessoa dificilmente consegue prender. Seu grito poderá chegar aos ouvidos da justiça. Existe uma refilmagem com o título Um Crime Perfeito (1988) – estrelado por Michael Douglas e Gwyneth Paltrow –  que não tem o mesmo encanto, se bem que o final é muito bem feito. Vale muito  ver e rever este filme que ensina.

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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