Camille Claudel (1988)

Você sempre trabalhou mais rápido e melhor que os outros. Lembre-se que o Sr. Boucher dizia…que é preciso expor para ser reconhecido. Não há outro modo!
(Louis -Prosper – aconselhando a filha Camille)

O filme conta a história da excepcional artista francesa Camille Claudel, que viveu em França entre os séculos XIX e XX – vítima de uma crueldade inominável, principalmente por parte de sua mãe e de seu irmão Paul Claudel. Camille (Isabelle Adjani) foi uma mulher que acreditou no amor e movida por este sentimento, envolveu-se numa relação ardente com o genial artista e misantropo Auguste Rodin (Gérard Depardieu – Danton – O Processo da Revolução, de1982).

No início, a jovem escultora furta barro de uma construção para realizar seus trabalhos que são orientados pelo mestre Alfred Boucher. No seu pequeno ateliê ela recebe a visita do arrogante Rodin e aí é o começo do fim. Obstinada pela arte, resolve aceitar o convite de Auguste e vai trabalhar em seu estúdio. Em pouco tempo, já envolvida amorosamente, passa a conviver na condição de amante. Ela contava 19 anos, ele 43.

O drama de Bruno Nuytten explora a relação íntima e artística entre Camille e Rodin – as conseqüências e o sofrimento vivido pela personagem feminina são bem sequenciados pelo diretor, que teve como diretora de arte Reine-Marie Paris, sobrinha-neta de Camille. Destaque para a magistral interpretação de Isabelle Adjani (A Rainha Margot, de 1994) e a envolvente trilha sonora.

O romance dos artistas logo foi alvo de comentários maldosos e repulsa da burguesia francesa. Os anos seguintes foram promissores e a paixão vivida intensamente. Ela colaborou decisivamente na execução da famosa obra de Rodin, intitulada Portas do Inferno. Tudo era maravilhoso. Os talentos misturavam-se e a chama do amor parecia eterna.

Infelizmente, o mestre opta por sua antiga namorada Rose Beuret (Danièle Lebrun) – que ele nunca deixou – e a tragédia estava anunciada. Ferida e decepcionada, Camille tentou continuar seu trabalho artístico e teve apoio de alguns críticos da época, entre eles, Octave Mirbeau e Mathias Morhardt, além do fundidor Eugène Blot.

Sucede, porém, que ela estava fragilizada demais e não teve forças para suportar a separação, sobretudo, quando incorporou a ideia de que Rodin a usava para projetar-se e boicotava suas peças artísticas – mesmo já consagrado.

Após trancar-se em seu local de trabalho e viver entregue a uma solidão obsessiva, ela destrói várias peças de sua preciosa coleção, afasta-se de todos e mergulha no inferno do isolamento. Este ato de desespero foi mal interpretado pela sociedade da época e por sua família, que por ordem de sua mãe e de seu irmão foi internada num asilo de loucos em Ville-Evrard e, um ano depois, colocada no hospital psiquiátrico de Montdevergues – onde viveu seus últimos trinta anos.

Na vida real, o doloroso é saber que Camille suplicou ao amado irmão – que lhe virou as costas – por meio de cartas, que fizesse algo para ajudá-la, já que não suportava as condições precárias em que vivia.

A mãe, mais perversa ainda – nunca foi visitar a filha – não aceitava a recomendação médica para levá-la de volta ao lar. O preconceito falou mais alto do que o sentimento. Isto é perfeitamente percebido no filme quando uma cena mostra a intragável mãe dizendo: “… por causa de seus caprichos. E tudo por sua pretensa vocação”. Já o pai Louis-Prosper (Alain Cuny) foi seu fiel incentivador. Infelizmente, ele morreu antes do infausto imposto a sua amada filha.

Camille Claudel morreu em sua prisão no ano de 1943, quando tinha 78 anos de idade. Lamentavelmente, para seus algozes – Rodin, mãe e irmão – o tempo e as leis não nos permitem enforcá-los, mas, certamente, suas almas penadas gritam e suplicam o perdão, que jamais deverá ser concedido.

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Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

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