Adeus, Lenin (2003)

Minha mãe viveu na nova Alemanha por três dias. Foi bom ela não ter sabido a verdade. Ela morreu feliz. Ela queria que jogássemos suas cinzas ao vento.
(Alex – antes de realizar o desejo da mãe)

A emoção é intensa e o nó na garganta é certo ao assistir este primoroso filme do cineasta alemão Wolfgang Becker. O drama retrata de maneira engenhosa a queda do muro de Berlin e o reencontro das duas metades alemãs, perversamente divididas por ideólogos políticos – falsos comunistas e ferrenhos capitalistas. Sucede, porém, que, por trás  desta faceta política está  algo mais sublime, que é o amor de Alexander Kerner (Daniel Brühl – Bastardos Inglórios, de 2009) por sua mãe Christiane Kerner, interpretada pela atriz Katrin Sass.

 

A mãe do jovem é uma mulher dedicada aos movimentos políticos da RDA (República Democrática Alemã), a conhecida Alemanha Oriental, tão defendida pelos meus colegas de faculdade, à época, como o sistema perfeito. Não pactuava em relação a esta crendice! O empenho de Christiane tem um propulsor a mais do que a crença no regime; ela foi deixada pelo marido que passou para o lado ocidental e, assim, buscou na militância um preenchimento para o vazio por ele deixado. Seus filhos Alex e Ariane (Maria Simon) são a razão maior de sua existência.

Durante uma passeata pela liberdade civil da qual Alex participa,  sua mãe o avista e, então,  diante da cena em que ele é preso,  sofre um ataque cardíaco, ficando em coma durante oito meses. É neste interregno que acontece, em novembro de 1989, a queda do “muro da vergonha” e, no ano seguinte, a conquista da copa de 1990 pela Alemanha, já em processo de reunificação. A euforia da vitória futebolística camufla o clima de tensão e facilita a reaproximação do povo germânico.

Depois que sua mãe desperta da inconsciência, surge um problema: seu estado debilitado não suportaria emoções fortes – é a recomendação médica. Diante do quadro, o filho decide esconder da mãe as mudanças ocorridas e recria o falido sistema comunista dentro do quarto de casa. É quando deparamos a melhor parte do filme, ou seja, o lado hilário que o diretor magistralmente exprime. Alex, que não quer deixar a mãe perder o encanto pelos antigos camaradas, inverte a história ante as situações que vão sendo reveladas. Quando Christiane sai às ruas e depara com o mundo dos carrões; outdoors e, principalmente, com a estátua de Lenin sendo carregada por um helicóptero – uma ponta de Fellini: La Dolce Vita – ele diz que aquilo é uma invasão dos irmãos ocidentais procurando emprego na RDA dos operários e camponeses.

A mãe revela aos filhos que o pai não os abandonou; houve um acordo e ela não cumpriu, pois não teve coragem de ir ao seu encontro por medo de perdê-los. O marido não voltou e constituiu uma nova família. Na visita que fazem a uma antiga casa de campo, ela novamente sofre um infarto e é levada ao hospital. Em seus  derradeiros momentos, pede para rever o homem que sempre amou.  E, à beira da morte, ele retorna à vida pelas mãos do filho.

Christiane Kerner morreu acreditando na utopia comunista – muitos ainda creem – e nada como um filme feito por um alemão para mostrar a todos o que lá ocorreu e tão bem retratar a realidade da ex-Alemanha do leste. É fácil fazer propaganda, ditar palavras de ordem e tudo mais para defender a mensagem oficial, notadamente, diante de indivíduos ingênuos e facilmente ludibriados. Difícil é viver a realidade. Filme para acordar os incautos.

Ao final, Alex diz: “O país que minha mãe deixou para trás… Era um país em que ela acreditava”; esta ilusão foi mantida com uma mentira. Para ele o que importava era a felicidade de sua mãe e nada mais. Hoje, a Nação Alemã está unificada e deverá assim permanecer.
“Adeus, Lenin!” – nunca mais outra vez.

Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no print
Imprimir
Walter Filho

Walter Filho

É Promotor de Justiça titular da 9a Promotoria da Fazenda Pública. Foi um dos idealizadores do PROCON de Fortaleza e ex-Coordenador Geral do DECON–CE. Participou e foi assistente de direção do premiado filme O Sertão das Memórias, dirigido pelo cineasta José Araújo. Autor dos livros: CINEMA - A Lâmina Que Corta e O CASO CESARE BATTISTI - A Palavra da Corte: A Confissão do Terrorista

Deixe um comentário