Rastros de Ódio (1956)

“Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.”
(Friedrich Nietzsche)

A maioria dos críticos consagrou este filme como a maior realização de John Ford – mestre absoluto do já esquecido faroeste. Sua consagração veio nas paisagens indomadas do Arizona, especialmente no santuário visual de Monument Valley. Ali, ele eternizou obras como No Tempo das Diligências (1939), o primeiro western a usar cenários naturais com tal grandiosidade.

Mas Rastros de Ódio vai além da paisagem. É a jornada interior de um homem solitário. Um exílio sem pátria, sem lar. A poeira que cobre as trilhas da pradaria é a mesma que assenta sobre sua alma.

Ethan Edwards (John Wayne) – que nunca me convenceu com seu estilo durão e racista – é um Ulisses que volta para uma casa que não é sua e para uma mulher que o ama em silêncio, mesmo casada com seu irmão. Carrega também o fardo de ter lutado do lado derrotado da Guerra de Secessão. Não aceita a rendição. Para ele, juramento e honra não admitem concessões.

Quando a casa dos Edwards é invadida pelos comanches e suas sobrinhas Debbie e Lucy são levadas, inicia-se uma busca que dura cinco longos anos. Uma cruzada que se disfarça de resgate, mas é puro rancor. O chefe indígena Scar (Henry Brandon) tem a cabeça a prêmio — e John Ford, com elegância cruel, não esconde as contradições do justiceiro branco: seu ódio o torna indistinguível dos que persegue.

O filme não é só sobre o deserto. É sobre o abismo que se abre entre civilização e barbárie — e como esse abismo pode morar dentro de um homem. Ford aponta o dedo para o racismo, a arrogância dos colonos, a hipocrisia religiosa e a brutalidade de um país que se construiu ao custo de sangrentas batalhas. Sobram tipos grotescos: pregadores fardados, comerciantes gananciosos, mexicanos caricatos e índios pintados como feras.

Ao seu lado, Ethan arrasta Martin Pawley (Jeffrey Hunter), mestiço que ele despreza, mas que é o único a manter acesa a chama da humanidade. É Martin quem deseja de fato salvar Debbie. E quando Ethan, num surto de ódio racial, ameaça matar a sobrinha por ela ter se tornado “uma índia”, é o jovem que se interpõe. A cena é um corte na carne: ali, o mito do herói americano sangra.

O tempo passa, o resgate se cumpre. Debbie é levada a salvo para o rancho de amigos. Lucy, a outra sobrinha, ficou no deserto — sepultada na areia e no silêncio.

Ethan não entra na casa. Fica parado na soleira da porta, isolado por um retângulo de sombra. Não há lugar para ele no lar. Não há retorno para quem pertence ao deserto. O ciclo da violência lhe roubou até isso: o direito de ficar. E assim, o cavaleiro solitário parte – rumo a lugar nenhum, levando apenas os rastros de seu próprio ódio.

 

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