DESEJO — MORTE — OBSESSÃO
“O cinema se tornou a minha vida. Não como se fosse um mundo paralelo, mas a minha própria vida. Às vezes, eu tenho a impressão de que a realidade do dia a dia está simplesmente lá para fornecer material para o meu próximo filme.” Pedro Almodóvar.
Matador não é apenas um filme sobre crime ou erotismo. É uma incursão sombria pelos territórios onde desejo e morte se confundem, onde o prazer nasce contaminado pela violência e a paixão já traz em si o impulso da destruição. Entre obsessões, culpas e pulsões incontroláveis, o diretor espanhol constrói uma obra que fica no tempo.
A Espanha é um país em que a dança e a arena convivem no mesmo imaginário. Festa e sangue caminham lado a lado. O prazer da conquista, da força e da vitória muitas vezes dilui a percepção da crueldade. Torna-se difícil dizer que um animal está sendo sacrificado quando a tradição já transformou a violência em espetáculo. Não por acaso, o próprio símbolo do cordeiro imolado atravessa séculos como imagem de oferenda sagrada para muitos fiéis.
A narrativa acompanha Ángel (Antonio Banderas), aprendiz de toureiro em conflito consigo mesmo e sufocado pela mãe dominadora, Berta (Julieta Serrano), que deseja submetê-lo aos rigores da religiosidade familiar ligada ao catolicismo do Opus Dei. Logo nas primeiras cenas, Almodóvar cruza duas pedagogias da morte: de um lado, um toureiro ensinando como matar o animal; de outro, uma mulher misteriosa seduzindo um homem para levá-lo ao sexo e à execução. No instante máximo do prazer, ela o elimina com uma alfinetada na região occipital.
Ángel tenta afirmar uma virilidade que não possui ao atacar sexualmente a vizinha Eva Soler (Eva Cobo). Não consegue consumar plenamente o ato, mas a violência já se impôs. Depois, em busca de identidade e reconhecimento, assume a autoria de quatro assassinatos investigados pela polícia. Confessa crimes que não cometeu, impulsionado por visões perturbadoras e por um vazio interior que o devora.
Seu mestre é Diego Montes (Nacho Martínez), ex-toureiro que vive isolado em uma mansão e ensina a arte da tauromaquia. Incapaz de abandonar o prazer da morte, substitui os touros por mulheres. Para ele, matar no instante final converte-se em ritual de excitação e perversão.
A defesa de Ángel cabe à advogada María Cardenal (Assumpta Serna), figura enigmática e obsessivamente ligada a Diego. Ela conserva objetos do antigo matador, sobretudo o lendário traje de luces. Nunca correspondida por ele, escolheu imitá-lo: se não podia partilhar sua glória, partilharia sua sombra. Em vez de touros, sacrifica os homens que leva para a cama.
À medida que os mistérios se dissipam, percebe-se que Ángel é, na verdade, dotado de percepções extrassensoriais que auxiliam a revelar os crimes. A polícia encontra os corpos de duas alunas de Diego nos jardins da casa, mas já é tarde. Diego e María escolhem o desfecho supremo: unem erotismo e morte, matando-se da mesma forma cruel com que trataram suas vítimas.
Matador é uma obra magistral sobre desejo, obsessão e destruição. Almodóvar expõe personagens que buscam satisfação sem qualquer limite moral, ainda que isso custe a dor alheia. O perturbador em seu cinema é justamente isto: o absurdo nunca surge como exceção, mas como extensão natural da vida.
Veja: