O Evangelho Segundo São Mateus (1964)

“Ao contrário de um tom grave e épico, tão aguardado em filmes de gênero, Pasolini buscou a leveza.”

(Luis Carlos O. Junior – crítico de cinema)

Discordo dos críticos que ainda se prendem ao fato de a película integrar a lista do Vaticano — filmes de temática religiosa aprovados pela Igreja Católica. A Inquisição e a censura pertencem ao passado. Isso não altera o valor estético nem a força intelectual da obra.O filme de Pier Paolo Pasolini é uma obra-prima. Um filme obrigatório para cristãos e não cristãos.

 

Se a passagem de Cristo foi verdadeira para os fiéis, esta versão pasoliniana é, talvez, a mais plausível já levada ao cinema: simples, austera e despojada de teatralidade. Aqui não há um salvador glorificado, mas um homem que insiste em fazer valer a palavra. Em alguns momentos é inflamável, intolerante, até duro — e é justamente aí que reside a sua humanidade. A construção do mito surge das próprias citações de Cristo (Enrique Irazoqui), dirigidas quase sempre a pequenos grupos, longe das multidões. O resultado é um registro eminentemente evangélico, sem alardes.

 

Comparado ao brutal A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, o trabalho de Pasolini aposta no simbólico — razão pela qual agradou à Cúria Romana. Mas é preciso compreender: esse simbólico nasce da narrativa de um terceiro, o evangelista Mateus. A palavra é o eixo do filme; a vida e o calvário de Cristo ficam em segundo plano. Não há espetáculo da dor. Há discurso. Há silêncio. Há rostos filmados como se fossem testemunhos.Pasolini também viveu sua própria via crucis. Perseguido, processado, atacado por suas ideias que transitavam do profano ao sagrado, caminhou até um fim trágico. Seu assassinato permanece envolto em sombras — um desfecho tão violento quanto irônico para quem filmou a fragilidade humana com tamanha lucidez.

 

A história de Cristo já recebeu incontáveis versões — oficiais, apócrifas, oportunistas. Dificilmente haverá consenso. Sempre surgirá alguém moldando os ensinamentos bíblicos à própria fé, e é aí que muitas obras fracassam. O diferencial de Pasolini está justamente em sua posição de não-fiel: ele filma com singeleza, quase com distância antropológica. Até os cabelos curtos de Jesus revelam compromisso com a verossimilhança histórica, rompendo com a iconografia romantizada.

 

Há um detalhe decisivo: o massacre das crianças de Belém não é explorado em close-ups, embora o filme privilegie planos fechados ao longo de toda a narrativa. Pier Paolo Pasolini parece recusar a tentação fácil de transformar a violência em espetáculo — escolha estética que revela mais respeito do que omissão. Recordo aqui o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, que trata esse episódio como uma ferida moral aberta: a agonia de um Cristo incapaz de compreender por que foi poupado enquanto crianças eram exterminadas. A Noite dos Inocentes, evocada por José Araújo em O Sertão das Memórias, permanece como um grito que atravessa séculos — não como resposta, mas como acusação silenciosa dirigida à própria narrativa da fé.

 

E então surge a pergunta incômoda: que Deus é este que ordena a fuga — “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito” — e permite que lâminas romanas abatam outros indefesos? Imaginem os gritos das mães, sufocados pela história. Se o episódio foi real, por que o anjo não alertou os demais pais? Questões assim não cabem em respostas fáceis — e Pasolini não tenta oferecê-las.

 

O Evangelho Segundo São Mateus talvez seja o retrato mais próximo de uma narrativa milenar quase sempre mal contada. Não é um filme devocional — é um confronto. Na cruz, Cristo questiona o Pai; e esse instante não o torna menos divino, mas profundamente humano.